O pedido de compra ficou em branco. Um ministério da saúde pode recitar o nome do produto, a dose e o ensaio, e ainda assim não ter o que mandar para o almoxarifado. Em boa parte da América Latina, o lenacapavir semestral para PrEP está nesse ponto: entra na conversa e não entra na ordem de compra. A pergunta que seguia aberta não era mais um ponto de eficácia. Era se um comprador público conseguia lançar a injeção numa linha que o tesouro aceitasse pagar.
Em 15 de setembro de 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde anunciou um acordo com a Gilead para que 14 países possam comprar o lenacapavir semestral para PrEP pelos Fundos Rotativos Regionais da OPAS. Cada compra continua sujeita aos processos regulatórios e programáticos do próprio país. O anúncio é um caminho de compra. Não cria uma licença voluntária nova e não é um registro novo. A OMS já tinha recomendado o lenacapavir em 2025 como opção adicional de PrEP, depois de ensaios que mostraram eficácia de quase 100%, em duas aplicações por ano. Essa recomendação é anterior ao acordo. O que faltava era um jeito de comprar.
A América Latina e o Caribe registram cerca de 140.000 novas infecções por HIV por ano. Uma injeção aplicada duas vezes por ano só mexe nesse número se as doses puderem ser pedidas, guardadas e oferecidas a pessoas que voltem para a segunda. O diretor da OPAS, dr. Jarbas Barbosa, pôs a condição numa frase: "Hoje, as Américas têm ferramentas cada vez mais eficazes para prevenir o HIV, mas essas inovações só terão impacto se chegarem às pessoas que precisam delas."
| Região | Países |
|---|---|
| América do Sul | Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela |
| México e América Central | Costa Rica, El Salvador, Guatemala, México, Panamá |
Esses catorze nomes são a lista de compra. O comunicado fala da América Latina e do Caribe; os países autorizados a comprar são os da tabela. Licenças voluntárias já cobrem 24 países da região, dentro de um marco global de 120. Licença diz quem pode fabricar. Fundo rotativo diz quem pode pagar em condições que um ministério consegue usar. Um país pode estar dentro de uma licença e ainda não ter porta para emitir o pedido. A nota de 15 de setembro é essa porta: completa as licenças, não as substitui. A linha de prevenção deste site já registra o PURPOSE 1, o PURPOSE 2 e a aprovação do Yeztugo em 2025. Esses resultados não são o que mudou.
A Gilead também vai adiantar um processo de transferência de tecnologia no Brasil, voltado a uma produção local futura. Nenhum prazo foi definido. Produção brasileira é tempo futuro. O que um setor de compras pode fazer agora é comprar o produto que já existe. Johanna Mercier, da Gilead, descreveu o acordo como um compromisso compartilhado: "O acordo entre a Gilead e a OPAS reflete nosso compromisso comum de ajudar os países a passar, o mais rápido possível, da inovação científica ao acesso real à prevenção do HIV e ao impacto na saúde pública."
No dia seguinte, 16 de setembro de 2026, a Gilead publicou um segundo fato que não cabe na mesma frase. Licenças voluntárias isentas de royalties foram estendidas a uma forma experimental de lenacapavir de aplicação uma vez por ano, cobrindo 120 países, enquanto o ensaio de fase 3 PURPOSE 365 ainda está em andamento. Nenhum regulador aprovou o produto anual. Não é a injeção semestral que os catorze países agora podem tentar comprar. Um item é uma compra que autoridades nacionais podem examinar. O outro é um candidato que não saiu do ensaio.
Nenhum dos catorze está obrigado a comprar, e o anúncio não mostra que algum pedido tenha sido feito. Reguladores, orçamentos e o trabalho de encontrar as pessoas duas vezes por ano continuam sendo decisões nacionais. A janela que se abriu em 15 de setembro é um modo de comprar. Não é uma entrega, e não é prova de que as novas infecções na região tenham começado a cair.
Fontes
OPAS, 15 de setembro de 2026: acordo com a Gilead para que 14 países comprem o lenacapavir semestral para PrEP pelos Fundos Rotativos Regionais, sujeito aos processos nacionais. Gilead, 16 de setembro de 2026: licenças voluntárias isentas de royalties estendidas ao lenacapavir anual experimental, 120 países, enquanto o ensaio de fase 3 PURPOSE 365 segue em andamento; esse produto não tem aprovação regulatória. Recomendação da OMS, 2025, do lenacapavir como PrEP adicional.